{"id":55,"date":"2024-11-07T11:32:13","date_gmt":"2024-11-07T14:32:13","guid":{"rendered":"https:\/\/departamentos.uel.br\/psicologia-social-e-institucional\/?p=55"},"modified":"2024-11-07T11:33:35","modified_gmt":"2024-11-07T14:33:35","slug":"como-e-duro-trabalhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/departamentos.uel.br\/psicologia-social-e-institucional\/sem-categoria\/2024\/11\/07\/como-e-duro-trabalhar\/","title":{"rendered":"Como \u00e9 duro trabalhar!"},"content":{"rendered":"\n<p>A Psicologia Social \u00e9 uma especialidade que transita entre a Psicologia e as Ci\u00eancias Sociais, ao estudar as rela\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo com seu meio social, e a influ\u00eancia deste sobre aquele. \u00c9 natural, portanto, que se ocupe de um tema social nevr\u00e1lgico: o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Paulo Roberto de Carvalho (Departamento de Psicologia Social e Institucional) coordena, desde 2019, um projeto de pesquisa intitulado \u201cExpress\u00f5es da resist\u00eancia ao trabalho\u201d. Glorificado, prazeroso procurado, mas tamb\u00e9m \u00e0s vezes opressor, odiado, fetichizado, ser\u00e1 o trabalho, nos moldes como o temos hoje, necess\u00e1rio? Ser\u00e1 poss\u00edvel viver \u2013 bem \u2013 sem trabalhar?<\/p>\n\n\n\n<p>Estas s\u00e3o algumas perguntas que desafiam os pesquisadores. O projeto objetiva avaliar criticamente os v\u00ednculos entre o ser humano e o trabalho, a partir de bases te\u00f3ricas de pensadores do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, como os conhecidos Max Weber e Karl Marx, e ainda o fil\u00f3sofo norte-americano Henry David Thureau (1817-1862) e Paul Lafargue (1842-1911), jornalista revolucion\u00e1rio socialista franco-cubano, que defendeu o \u201cdireito \u00e0 pregui\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas lentes te\u00f3ricas, por\u00e9m, voltam-se para o s\u00e9culo XXI, quando contingentes significativos da popula\u00e7\u00e3o mundial enfrentam o desemprego ou o subemprego. Faltam empregos formais, mas\u2026 s\u00e3o eles a \u00fanica alternativa? Existe a op\u00e7\u00e3o de simplesmente n\u00e3o trabalhar?<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho \u00e9 valorizado desde a Antiguidade. No Livro de Prov\u00e9rbios (escrito por volta do s\u00e9culo X antes de Cristo), o cap\u00edtulo 22, vers\u00edculo 29, diz: \u201cVoc\u00ea conhece algu\u00e9m que faz bem o seu trabalho? Saiba que ele \u00e9 melhor do que a maioria e merece estar na companhia de reis\u201d. J\u00e1 na segunda ep\u00edstola \u00e0 comunidade da Tessal\u00f4nica, Paulo de Tarso escreveu: \u201cQuando ainda est\u00e1vamos com voc\u00eas, n\u00f3s lhe ordenamos isto: se algu\u00e9m n\u00e3o quiser trabalhar, tamb\u00e9m n\u00e3o coma\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a Idade M\u00e9dia j\u00e1 come\u00e7ava a declinar (s\u00e9culo XIII), e a burguesia come\u00e7ava a despontar, surgiu entre a popula\u00e7\u00e3o camponesa a ideia de um lugar chamado Cocanha: um pa\u00eds imagin\u00e1rio onde tudo era feito de comida e bebida. Os rios eram de vinho, as casas eram comest\u00edveis, os pratos vinham andando at\u00e9 as pessoas para serem devorados. O trabalho era proibido, e os dias da semana eram s\u00f3 domingos e feriados. Para a popula\u00e7\u00e3o pobre, uma utopia para fugir do trabalho \u00e1rduo e a falta de perspectiva. Para a burguesia incipiente, um esc\u00e2ndalo: coisa de gente vagabunda.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Trabalho e moral<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Os s\u00e9culos foram passando e o trabalho os atravessou como componente fundamental do sucesso, da compet\u00eancia ou da dignidade. Assim como se firmou a ideia da recompensa pelo esfor\u00e7o e pelo m\u00e9rito. Basta lembrar da f\u00e1bula da cigarra e da formiga: esta \u00e9 recompensada pelo seu esfor\u00e7o, enquanto a outra paga um alto pre\u00e7o por n\u00e3o trabalhar. Como se v\u00ea, o trabalho se mistura com uma moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Os movimentos que tentaram se opor a este modelo ainda pensavam dentro da l\u00f3gica capitalista, por isso n\u00e3o chegavam a propor mudan\u00e7as sociais estruturais. A exce\u00e7\u00e3o foi o Anarquismo, movimento nascido na segunda metade do s\u00e9culo XIX e que chegou ao Brasil com os imigrantes europeus, at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. O Anarquismo era contra qualquer tipo de domina\u00e7\u00e3o e hierarquia, fosse ela pol\u00edtica, econ\u00f4mica, social ou cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta tal de l\u00f3gica capitalista \u00e9 forte e resistente, e tem sabido voltar as oposi\u00e7\u00f5es contra elas mesmas. \u201cO Capitalismo se apropria dos movimentos de ruptura e anexa a l\u00f3gica do lucro a eles\u201d, diz o professor. Assim, o que come\u00e7a como uma amea\u00e7a de ruptura vira modinha, embal\u00e1vel, consum\u00edvel, e geradora de lucro a quem souber capitalizar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Trabalho, n\u00e3o. Experi\u00eancia!<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Assim, atualmente, a \u00eanfase n\u00e3o \u00e9 mais no trabalho, explica o professor Paulo. Tampouco na acumula\u00e7\u00e3o de bens. Para gera\u00e7\u00f5es mais novas, o que vale \u00e9 a \u201cexperi\u00eancia\u201d. Assim, sua \u201cocupa\u00e7\u00e3o remunerada\u201d (designa\u00e7\u00f5es novas s\u00e3o muito apreciadas) precisa ser prazerosa, sem frustra\u00e7\u00f5es ou sacrif\u00edcios. Por isso muitas atividades desejadas hoje s\u00e3o est\u00e9ticas, como m\u00fasica e artes pl\u00e1sticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O dinheiro n\u00e3o \u00e9 mais para comprar um autom\u00f3vel ou a antes sonhada \u201ccasa pr\u00f3pria\u201d de outras gera\u00e7\u00f5es. O transporte \u00e9 de aplicativo e para morar um flat ou studio est\u00e1 \u00f3timo. O dinheiro \u00e9 para comprar o ingresso do show, a passagem para o local onde se far\u00e1 trilhas, levar at\u00e9 a praia que est\u00e1 \u201cbombando\u201d, \u00e0 festa que vai reunir todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O que importa \u00e9 o presente. Por\u00e9m, o professor faz um alerta: esta exagerada presentifica\u00e7\u00e3o gera um efeito perigoso \u2013 a falta de um projeto de vida, que fica desfocada.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de \u201cexperi\u00eancia\u201d \u00e9 f\u00e1cil de verificar em outros aspectos da vida social, como o turismo. Pelo discurso publicit\u00e1rio, n\u00e3o trata mais de almo\u00e7ar ou jantar num restaurante, mas de ter uma \u201cexperi\u00eancia gastron\u00f4mica\u201d. Igualmente, os hot\u00e9is n\u00e3o oferecem mais \u201chospedagem\u201d, mas \u201cexperi\u00eancias\u201d em seus espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo assim, quem quer suar do pr\u00f3prio rosto para conseguir seu sustento? Da\u00ed a resist\u00eancia ao trabalho.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Resist\u00eancias pelo mundo<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>De acordo com o professor Paulo Roberto, h\u00e1 resist\u00eancias no mundo todo. Em alguns pa\u00edses, os jovens planejam trabalhar s\u00f3 at\u00e9 determinada idade. Em outros, trabalham s\u00f3 o suficiente para receber alguns meses de seguro-desemprego, num ciclo sem fim.<\/p>\n\n\n\n<p>A resist\u00eancia chegou a gerar movimentos como o \u201cantiwork\u201d, totalmente contra a ideia de \u201cvestir a camisa\u201d (muito difundida nos anos 90) e de ser workaholic, porque nada disso \u00e9, no fundo, valorizado pelo empregador. Surgido antes da pandemia, fortaleceu-se durante o per\u00edodo de quarentena, que n\u00e3o favoreceu aqueles que desenvolvem trabalhos bra\u00e7ais e, portanto, presenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro movimento, conta o professor Paulo, \u00e9 o quiet quitting, uma esp\u00e9cie de \u201cabandono silencioso\u201d que prega que o empregad\u2026 ops, colaborador fa\u00e7a t\u00e3o-somente o m\u00ednimo necess\u00e1rio que lhe \u00e9 atribu\u00eddo. Novamente o per\u00edodo pand\u00eamico contribuiu: com a perda de parentes e amigos, muitos se indagaram por que se dedicar tanto ao trabalho ao inv\u00e9s de passar mais tempo com a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado do mundo, a China se desenvolveu rapidamente, mas este esfor\u00e7o n\u00e3o passou inc\u00f3lume nem foi a baixo custo. L\u00e1, muitos empres\u00e1rios adotaram a pol\u00edtica das 996 horas: exigiam uma jornada de trabalho das 9h \u00e0s 21h, 6 dias por semana, ou seja, 72 horas por semana. Houve protestos em 2019 e, em 2021, o Tribunal Popular declarou o sistema ilegal. Ainda assim, em abril daquele ano, surgiu o movimento Tang Ping (em portugu\u00eas: \u201cficar deitado\u201d). Mais radical ainda \u00e9 o \u201cbai lan\u201d (\u201cdeixar apodrecer\u201d): movimento de jovens que preferem desistir de tudo por terem perdido a esperan\u00e7a, assim como o prop\u00f3sito de viver. Pois se \u00e9 assim, para que qualquer sacrif\u00edcio? Estes jovens ficam em casa sem fazer nada.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, foi cunhado o termo \u201cgera\u00e7\u00e3o nem nem\u201d para designar aqueles nascidos aproximadamente entre os anos 2000 e 2005, que hoje n\u00e3o querem nem estudar, nem trabalhar. Vivendo confortavelmente na casa dos pais, com Internet \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e sem a necessidade de pagar contas, eles tamb\u00e9m se op\u00f5em \u00e0 ideia de trabalhar. Pra qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Alternativas?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>O projeto continua mapeando as poss\u00edveis \u201clinhas de fuga\u201d, ou tentativas de resist\u00eancia ao trabalho e ruptura com o modelo vigente. Se nos anos 60 houve o movimento hippie, nos dias atuais surgiu o de \u201cSimplicidade Volunt\u00e1ria\u201d, um estilo de vida com menos telas e mais Natureza; rela\u00e7\u00f5es humanas mais profundas e uma esp\u00e9cie de minimalismo material.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas enfim, haveria modos de vida alternativos? Para Paulo Roberto, \u00e9 bom lembrar que a tecnologia reduz o trabalho humano. Em alguns pa\u00edses, isso levou \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da jornada semanal de trabalho. O Brasil nem cogita discutir isso. Pelo contr\u00e1rio: aqui, os dubladores profissionais iniciaram um movimento para defender seu trabalho, amea\u00e7ado pela Intelig\u00eancia Artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo caso, o professor diz que o modelo hegem\u00f4nico de rela\u00e7\u00f5es de trabalho n\u00e3o precisa ser o \u00fanico. Nem deve, pois o ser humano n\u00e3o pode ser definido pelo trabalho. Ele \u00e9 muito mais que isso, afirma. O ideal \u00e9 transformar a sociedade, de modo que as pessoas possam realizar outras atividades que n\u00e3o as laborais, reapropriando-se de suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Futuro do projeto<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>O professor Paulo Roberto est\u00e1 em processo de aposentadoria e deve ser substitu\u00eddo, na coordena\u00e7\u00e3o do projeto, pela professora Sonia Regina Vargas Mansano, do mesmo Departamento, j\u00e1 participante das pesquisas. At\u00e9 aqui, o projeto j\u00e1 contou com a participa\u00e7\u00e3o de estudantes de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, gerou publica\u00e7\u00f5es (cap\u00edtulos de livros) e apresenta\u00e7\u00f5es em eventos cient\u00edficos, inclusive de n\u00edvel internacional. Tamb\u00e9m produziu uma disserta\u00e7\u00e3o sobre \u201cvagabundagem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Psicologia Social \u00e9 uma especialidade que transita entre a Psicologia e as Ci\u00eancias Sociais, ao estudar as rela\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo com seu meio social, e a influ\u00eancia deste sobre aquele. \u00c9 natural, portanto, que se ocupe de um tema social nevr\u00e1lgico: o trabalho. 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